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Entrevista: João Alberto Viol
14-12-2009

João Alberto Viol é o novo presidente nacional do Sinaenco para o biênio 2010/2011. Engenheiro civil, formado pela USP São Carlos em 1975, Viol estreou na profissão como projetista na área de saneamento. Mais tarde foi assistente de diretoria do DAE - Departamento de Águas e Esgotos de São Bernardo do Campo, diretor técnico da Companhia de Construções Escolares de São Paulo, diretor técnico da Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista, diretor de Obras e diretor executivo da FDE - Fundação para o Desenvolvimento da Educação, diretor de engenharia da Sabesp, presidente nacional da Abes - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental e presidente da Apecs - Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente. Hoje é membro permanente do Conselho Diretor da Abes, além de dirigir sua empresa, a JHE Consultores Associados e ter sido vice-presidente nacional do Sinaenco nas duas útimas gestões. Nesta entrevista, realizada dias antes de sua posse na presidência nacional, Viol revela e discute alguns pontos que serão priorizados pela nova diretoria do sindicato.

O que muda no Sinaenco sob sua gestão?
Nossa ideia é dar seguimento ao trabalho realizado até agora, mas trabalharemos para estruturar melhor a entidade, especialmente em suas regionais. O setor de arquitetura e engenharia consultiva passa por um momento de crescimento em todo o país e precisamos organizar o Sinaenco para atender aos novos desafios que virão em todos os estados do Brasil. Queremos fortalecer os braços do Sinaenco, porque hoje ele está muito centralizado na direção nacional. Vamos buscar o aumento do quadro associativo, promoveremos eventos temáticos de interesse das empresas e daremos continuidade a algumas lutas de interesse do setor, por exemplo, contra as concorrências por menor preço, contra os pregões eletrônicos e também os eventuais problemas regionais. Um ponto importante é a mudança da Lei de Licitações, que está para entrar em votação no Plenário do Senado.

Quais serão as metas prioritárias?
Duas bandeiras continuam na ordem do dia: a campanha Obras com Prazo de Validade Vencido, em defesa da manutenção das obras públicas, e o trabalho para que o Brasil planeje bem suas ações para a Copa 2014 e a Olimpíada de 2016. O Sinaenco conseguiu colocar as duas palavras - planejamento e projeto - na pauta da imprensa e dos governantes e elas começam a ser compreendidas pelo gestor público e pela sociedade. Essas duas ações terão continuidade agora em sintonia com o trabalho de reestruturação das regionais. E o presidente anterior, José Roberto Bernasconi, que assumiu a direção do Sinaenco/SP já manifestou o compromisso de seguir conosco nessa campanha.

E as novas campanhas?
Nossa gestão irá deflagar pelo menos três grandes campanhas: uma de visibilidade externa, de grande interesse social, em defesa do Saneamento. Saneamento Básico é no Brasil é um desafio de longa data. É evidente que, apesar de alguns engenheiros terem levantado essa necessidade ainda no final do século XIX, como é o caso do Saturnino de Brito, a verdade é que nós da engenharia não conseguimos motivar as autoridades a investir nessa área. Isso é histórico e levamos 30 anos para conseguir uma lei que regulamentasse o setor e estabelecesse regras para que a iniciativa privada tenha maior segurança em investir no setor, além de dar melhor clareza para atuação de municípios e definição das concessões estaduais. Os investimentos ou são desviados para outras áreas ou são aplicados inadequadamente, por falta de projetos, ou por falta de interesse político. Como dizem popularmente, saneamento não traz voto porque é uma obra enterrada que ninguém vê, ou melhor, somente vê enquanto está sendo executada, com todo aquele transtorno das escavações e vias interditadas.

É preciso estimular a opinião pública a lutar pelo saneamento...
Exato. O melhor exemplo disso foi a campanha pela Copa de 2014, quando a engenharia conseguiu abrir um canal de comunicação com a sociedade, por meio da imprensa. Sanear é descontaminar, limpar, tratar, então deveria ser simples motivar a população, mas não tem sido assim. Por isso, achamos que um trabalho de educação é fundamental. Nosso foco para iniciar a campanha vai ser a água, mostrando como as atitudes de limpeza e destinação adequada do lixo evitam a contaminação dos mananciais e reduz o impacto das enchentes. Mas, sempre que se discute esse tema surge uma pergunta: o Brasil conseguirá universalizar o saneamento até 2014 ou 2016? Qual vai ser a nossa imagem na mídia em 2014 em relação aos residuos sólidos, esgotos, e até sobre a falta de água potável, ou dos mananciais totalmente poluídos? E qual seria a possibilidade disso tudo ser resolvido? A verdade é que o trabalho exigirá muito mais tempo, e não será possível concluir tudo até a Copa. Um estudo recente mostrou que o investimento em saneamento entre 2003 e 2009 é o maior de nossa história e que nesse ritmo somente conseguiremos universalizar o saneamento em 2075!

Podemos falar sobre as outras duas prioridades?
São duas ações de interesse do setor de A&EC. A primeira vai procurar valorizar o gerenciamento como instrumento de gestão pública, mas também privado, de forma que a arquitetura e engenharia participem dos planos governamentais desde as primeiras discussões, no início do projeto, até a execução da obra.Tudo isso sem substituir a atividade fim do contratante. E como o gestor público tem de prestar contas do que faz, o gerenciamento irá facilitar esse controle. E toda a sociedade será beneficiada, com obras de qualidade, com prazos exatos e custos mais adequados.
Outra prioridade, diretamente relacionada ao atual ciclo de crescimento do país, será a da capacitação das empresas e profissionais. Nos anos 1980 e 1990, com a crise brasileira, a engenharia perdeu sua capacidade de reagir com agilidade às demandas da economia. E isso abre campo para que empresas estrangeiras ocupem espaços que caberiam aos brasileiros. Temos que lutar para que os governos desenvolvam políticas de formação massiva de pessoal técnico. O Sinaenco pode atuar como um provocador de processos, promovendo eventos de formação junto com as universidades, mas a ideia é que essa atividade seja assumida pelo Estado e também pelas grandes empresas privadas.

O Sinaenco ainda é uma entidade muito identificada com a engenharia. Haverá mais espaço para atrair arquitetos?
O Sinaenco representa igualmente empresas de engenharia e de arquitetura. Apesar de assumirem posições muito distintas na sociedade elas devem ser compreendidas como atividades complementares. Já trabalhei em edificações escolares na FDE e lá existe um ótimo equilíbrio entre os profissionais. A arquitetura brasileira já teve grande repercussão mundial e hoje tem um espaço enorme para se desenvolver. É uma disciplina que está num plano entre a técnica e a arte e tem a capacidade de valorizar as cidades, criar pontos de atração para os cidadãos e também para o turismo. Hoje o Sinaenco promove o Fórum de Arquitetos da Copa, um espaço estratégico, de discussão de problemas urbanos, que pretendemos valorizar. Talvez, depois da Copa de 2014 o Brasil possa exportar sua experiência em arquitetura e engenharia em projetos de estádios e da infraestrutura necessária para grandes eventos esportivos.

 
 
 
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